Querido Edward – Ann Napolitano

Quando um avião cai deixando apenas um sobrevivente, Edward de 12 anos, “Querido Edward” de Ann Napolitano questiona qual é o propósito da vida, lidando com este assunto com honestidade e realismo, mas com otimismo e esperança subjacentes.

O romance é dividido em duas partes em capítulos alternados, o primeiro enfocando as horas que antecederam o trágico acidente e várias das vítimas individuais a bordo do vôo, e o segundo no personagem central de Edward, e aqueles que o cercam no dias, meses e anos após a tragédia.

Napolitano escreve personagens realistas, que não são necessariamente todos simpáticos, mas todos com um nível de vulnerabilidade que vem à tona quando confrontados com a sua própria imortalidade e com a de seus entes queridos. Como resultado disso, os personagens que formam o ponto focal do romance são particularmente cativantes e eu me senti quase protetora com eles, especialmente com Edward e seu melhor amigo Shay.

A escrita de Napolitano é direta e flui com facilidade, o que considero importante para este romance, pois o assunto não facilita a leitura e, ao adotar um estilo simplista, deixa o leitor livre para lidar com os complexos temas da perda e separação, luto e trauma, e seu impacto duradouro.

Napolitano vê seus personagens refletirem sobre o que é a vida e o que fazemos com ela, … convidando o leitor a considerar as mesmas questões filosóficas … com cada uma das três partes do romance começando com uma citação filosófica e instigante, minha favorita. sendo: “Já que a morte é certa, mas a hora da morte é incerta, o que é mais importante?” Pema Chödrön.

Fiquei profundamente comovida com este romance e não consegui encontrar uma falha nele. No entanto, eu acrescentaria a advertência de que há tantos gatilhos emocionais neste romance, que não é algo para se entrar levianamente.

Leituras de 2020

2020 foi um ano diferente. Vimos um mundo em transformação, a história sendo escrita em tempo real, em um espaço em que nós éramos também parte da trama, cujo enredo custou a liberdade, os sonhos e a vida de muitas pessoas.

A atipicidade do ano contribuiu para que eu me aprofundasse ainda mais em um mundo criado com universos fantásticos, alguns cáusticos e tantos outros dolorosos, mas na segurança da poltrona e do papel, que ao sabor da vontade, eu fechava suas páginas. E confesso, o isolamento social contribuiu de forma positiva para o andamento das minhas leituras. Se 2019 fiquei feliz com meus 111, em 2020 fiquei muito mais com a marca de 117 ( e ainda deixei um pela metade para terminar em 2021).

O avanço da COVID-19, as notícias vindas do mundo me jogaram em uma espiral de ansiedade e  medo que foi amenizada apenas pelos livros,  sem eles eu não sei o que seria de mim, já que não suportei ligar a TV, me lembrava constantemente da frase do Graciliano Ramos: “Quando a realidade me entra pelos olhos, meu pequeno mundo desaba”.  Por isso, sou grata aos livros me ajudarem a chegar até aqui com a sanidade mental preservada, por me devolverem a fantasia, o sonho e a esperança de que podemos ser melhores, podemos ainda evoluir como espécie, evoluir em amor, empatia e autocuidado.

Segue então a minha lista profícua dos livros lidos em 2020:

  1.  Os irmãos Karamázov – Dostoiévski19
  2. O jogador – Dostoiévski
  3. Dom Casmurro – Machado de Assis
  4. Odisséia – Homero
  5. O dia em que selma sonhou com um Ocapi – Mariana Leky19
  6. Almas mortas – Nikolai Gógol19
  7. O mundo se despedaça – Chinua Achebe
  8. Pais e filhos – Ivan Turguêniev*
  9. Ensaio sobre a cegueira – José Saramago
  10. Esaú e Jacó – Machado de Assis
  11. Os segredos que guardamos – Lara Prescott*
  12. O olho mais azul – Toni Morrison
  13. As fúrias invisíveis do coração – John Boyne
  14. Histórias para ler sem pressa – Mamede Mustafa Jarouche
  15. Crime e Castigo – Dostoiévski*
  16. As sete mortes de Evelyn Hardcastle – Stuart Turton
  17. Um lugar bem longe daqui – Delia Owens
  18. Memorial de Aires – Machado de Assis
  19. Êxtase da transformação – Stefan Zweig*
  20. Iracema – José de Alencar
  21. Uma certa paz – Amós Oz
  22. O Castelo – Kafka
  23. Contos consagrados – Machado de Assis
  24. Desespero – Vladimir Nabokov
  25. Uma casa no fim do mundo – Michael Cunningham
  26. Cem – Helke Faller e Valerio Vidali
  27. O morro dos ventos uivantes – Emily Brontë*
  28. A uruguaia – Pedro Mairal
  29. Uma noite na praia – Elena Ferrante
  30. Doutor Jivago – Boris Pasternak*
  31. A última festa – Lucy Foley
  32. O que aconteceu com Annie – C.J. Tudor
  33. A memória do mar – Khaled Hosseini
  34. A casa dos Náufragos – Gillermo Rosales
  35. A Aldeia de Stiepantchikov e seus habitantes – Dostoiévski*
  36. Flicts – Ziraldo
  37. Uma escada para o céu – John Boyne
  38. Estranhos sentimentos – Sérgio Napp
  39. Adão e eva – Machado de Assis
  40. Acender uma fogueira – Jack London
  41. A corrente – Adrian Mckinty
  42. Diário de Coincidências – João Anzanello Carrascoza
  43. Território Lovecraft – Matt Ruff
  44. Fodeu Geral – Mark Manson
  45. Dance, Dance, Dance – Haruki Murakami
  46. Todo dia a mesma noite – Daniela Arbex**
  47. Adeus, Gana – Taiye Selasi
  48. O Banquete – Platão
  49. Os amantes de Hiroshima – Toni Hill
  50. Guerra e paz – Tolstói*
  51. Dois sonhos – Dostoiévski
  52. Meninos de Zinco – Svetlana Aleksiévitch**
  53. Stoner – John Williams*
  54. Nascido do crime – Trevor Noah*
  55. Sobre a ficção – Ricardo Viel
  56. A carruagem – Gógol
  57. Léxico Familiar – Natalia Ginzburg
  58. O processo – Kafka
  59. A verdadeira vida de Sebastian Knight – Vladimir Nabokov
  60. Pandemia – Slavoj Zizek
  61. As lágrimas de Shiva – César Mallorqui
  62. Uma dor tão doce – David Nicholls*
  63. A cidade das feras – Isabel Allende
  64. Os últimos dias – Tolstói
  65. O reino do céu está em vós – Tolstói
  66. Variações enigma – André Aciman
  67. Fala memória – Vladimir Nabokov
  68. Escola de contos eróticos para viúvas – Balli Kaur Jaswal
  69. Estação atocha – Ben Lerner
  70. Mal entendido em Moscou – Simone de Beauvoir
  71. Toda luz que não podemos ver – Anthony Doerr®
  72. Eu sou o último judeu – Chil Rajchman®
  73. A defesa Lujin – Vladimir Nabokov
  74. O livro de Líbero – Alfredo Nugent Setubal
  75. O mestre e Margarida – Mikhail Bulgákov*
  76. Mulhetes que correm com os lobos – Clarissa Pínkola Estés
  77. As palavras andantes – Eduardo Galeano
  78. Herdeiras do mar – Mary Lyn Bracht**
  79. Quando Lisboa tremeu – Domingos Amaral
  80. Humilhados e Ofenddidos – Dostoiévski
  81. A insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera*®
  82. Um homem bom é difícil de encontrar – Flannery O’Connor
  83. Gente pobre – Dostoiévski
  84. A elegância do ouriço – Muriel Barbery*®
  85. O jovem Lennon – Jordi Sierra i Fabra
  86. Velhos são os outros – Andrea Pachá
  87. Khadji Murat – Tolstói
  88. As outras pessoas – C.J. Tudor
  89. Sal – Letícia Wierzchowski®
  90. Felicidade Conjugal – Tolstói *
  91. Avenida dos mistérios – John Irving
  92. Os sonhadores – Karen Thompson Walker
  93. A vida não é justa – Andrea Pachá
  94. Depois a louca sou eu – Tati Bernardi*
  95. O gato diz adeus – Michel Laub
  96. Prata do tempo – Letícia Wierzchowski
  97. Carta a um refém – Anthonie de Saint-exupéry
  98. Ponto Cardeal – Leónor de Récondo
  99. A última estação – Jay Parini*
  100. Navegue a lágrima – Letícia Wierzchowski®
  101. Lavoura arcaica – Raduan Nassar
  102. O diabo – Tolstói*
  103. O sol mais brilhante – Adrienne Benson
  104. Alice no país das maravilhas – Lewis Carroll
  105. Auto da compadecida – Ariano Suassuna
  106. A origem dos outros – Toni Morrison
  107. A casa holandesa – Ann Patchett
  108. Toda poesia – Paulo Leminski®
  109. A véspera – Ivan Turguêniev*
  110. Admirável mundo novo – Aldous Huxley
  111. A terceira vida de Grande Copeland – Alice Walker*
  112. Contos reunidos – Vladimir Nabokov
  113. Um estudo em vermelho – Sir Arthur Conan Doyle
  114. Sonho de uma noite de verão – William Shakespeare
  115. O que é arte? – Tolstói
  116. Todos os nossos ontens – Natalia Ginzburg
  117. Não há segunda chance – Harlan Coben

 

Legenda:

19 – Inciados em 2019 e terminados em 2020

® – Releituras

* Gostei muito

** Marcantes

 

 

Que venha 2021!

A terceira vida de Grange Copeland – Alice Walker

Este não é um livro fácil de se digerir. O racismo e a violência são  temáticas que sempre nos causam reações como repulsa e raiva, foi o caso desta obra, mas vale a pena prosseguir na leitura porque Alice Walker nos faz conhecer Grange Copeland que consegue quebrar um ciclo de maldade em sua vida às custas de sofrimento e crescimento pessoal. Com linguagem árida, ciclo linguístico limitado não só retratando uma baixa escolaridade das personagens, fruto de preconceito racial, mas enfatizando a aspereza da alma, algo que lapidou suas almas endurecendo e formando um ciclo violento.

Para falar de Grange, Walker nos apresenta Brownfield, seu filho, que parece seguir os caminhos do pai. Fruto de violência, via sua mãe ser espancada, maltratada e violentada, ele cresceu sem muitas perspectivas, mas parecia querer um futuro diferente, o leitor chega a acreditar que o livro redime seu personagem, mas Alice desce ainda mais na maldade humana, lá onde se encontram os traumas e o desejo latente de vingança, como se descontando em outrem, Brownfield aliviasse as suas frustrações. Ele foi violento até às últimas consequências. Este é um personagem que a gente gostaria que não existisse em nossa sociedade, nem queríamos que a mente humana pudesse ser capaz de criá-lo. Infelizmente, estamos todos sujeitos a encontrar um Brownfield em cada esquina.

Mas reforço, este é um tratado desconfortável para a visão dolorosa de seres humanos despojados de suas almas por gerações. Cru, doloroso, mas bonito. Mesmo lendo algo terrivelmente trágico, não conseguia desviar o olhar porque eu tinha que acreditar que a esperança estava em algum lugar nas páginas a seguir. Mesmo em meio a imenso sofrimento e violência, Walker nos mostra como sempre um caminho para a redenção e finalmente LIBERDADE.

Ela também nos mostra que a liberdade pode vir de muitas formas. A terceira vida de Grange Copeland foi uma jornada difícil e sem fôlego que tive a sorte de experimentar. Grange aprendeu com as suas más experiências e nos mostrou que a maldade não precisa ser um ciclo a ser perpetrado por gerações, é possível quebrá-lo. Este é um dos personagens mais grandiosos que pude conhecer.

Minha única reclamação (e eu admito que isso é mesquinho no grande esquema do livro) é que foi um pouco longo no final antes da conclusão da história. O próprio fim também foi abrupto e resta-nos perguntar o que aconteceu com Ruth. Existe uma sequela?

 

O sol mais brilhante – Adrienne Benson

Tenho lido muito sobre a África e cada vez gostando mais de aprender sobre novas culturas, geralmente gosto de livros que mostram os locais da perspectiva de vários personagens. Esta é uma história guiada por personagens, com foco em três mães. Mostra como cada um foi moldado por sua própria formação, cultura e infância por mães distantes, negligentes ou autoritárias, ou por abuso infantil e solidão.

A história se concentra em duas mulheres ocidentais que vivem no Quênia. Leona, uma antropóloga que estuda os Maasai, vive entre a tribo. Jane foi para a África para ajudar a conservar elefantes e trabalhar em um esforço para prevenir a caça furtiva e mais tarde, voltou ao continente para acompanhar o marido, diplomata. Suspeitei que nenhuma das duas personagens principais estavam ali pelos motivos certos, mas para escapar de uma vida desagradável em casa. Elas logo ficam à deriva em seus próprios problemas emocionais.

Leona é apresentada como sendo fria e desprovida de qualquer desejo de interações pessoais satisfatórias ou de longo prazo. Quando, para seu desespero, torna-se mãe solteira, ela recusa qualquer relacionamento com o homem responsável, que deseja ajudar a criar sua filha, Aida. Leona não consegue se relacionar com a filha bebê e se sente apática em relação à maternidade. Embora entendesse sua educação, eu poderia ter empatia, mas sua falta de calor para com a criança é perturbadora. Ela decide  dividir a maternidade com Simi, uma estéril mulher Maasai. Mulheres sem filhos são consideradas, amaldiçoadas e trazem má sorte na cultura Maasai, e Simi anseia por um filho. Ela teme ser rejeitada por seu marido e pelo resto de sua comunidade.

Aida está adaptada ao modo de vida Maasai e do amor de Simi e das outras mulheres da aldeia. Sua vida está dividida entre a cultura Maasai e quando ela se junta a Leona em Nairóbi, sua vida entre a comunidade de expatriados de lá. Leona tende a negligenciar Adia e deixar a filha independente vagando sozinha pela cidade e arredores.

Jane fica feliz em deixar seu trabalho com os elefantes após um encontro assustador com caçadores ilegais. Ela se casa com um homem cuja carreira está no serviço governamental no exterior, o que envolve mudar constantemente com o marido e a filha, Grace. Ela se ressente dos movimentos frequentes e começa a se isolar nas novas postagens. Ela não gosta da carreira promissora de seu marido e se distancia dele, e se pega agarrada a Grace. Jane está ficando deprimida.

As histórias de vida tão iguais em suas medidas, faz com que Jane e Leona se encontre. Adia e Grace tornam-se amigas aos 12 anos e, apesar das diferenças nas vidas domésticas, tornam-se inseparáveis. Neste ponto, as três mães e as meninas estão conectadas por uma terrível tragédia.

O sol mais brilhante é uma  história de muito sofrimento e tristeza, com apenas pequenos vislumbres de felicidade e essa felicidade precisa ser prolongada, nos mostra que nada é fácil, justo e como queríamos. Um retrato da realidade que não buscamos, mas podemos tocar a qualquer momento.

Ponto cardeal – Léonor de Récondo

Aceitação e identidade, mas acima de tudo, o que encontramos aqui é a coragem de ser o que verdadeiramente somos.

Ser você mesmo é uma escolha. Alguns preferem se esconder em um personagem por vários motivos, mas o social é o principal deles. Há quem represente tão bem o papel de sua vida que acaba acreditando que este é seu verdadeiro eu. Gente que passa a vida inteira agindo conforme as conveniências, com medo do julgamento alheio, com medo de não suportar a dor de sua realidade.

Ser o que se é pode ser libertador, trazer leveza, mas há casos em que se assumir como ser real é doloroso. Romper nunca é um processo simples, mas a recompensa pode valer a pena o caminho. Afinal, o que é mais importante, se olhar no espelho e ver o que gosta ou o que as pessoas querem ver? Ser e parecer é uma escolha importante.

Laurent é casado, malha todos os dias, pedala, tem um bom emprego e dois filhos adolescentes saudáveis. Laurent tem uma vida feliz para os padrões sociais. Duas vezes na semana ele estaciona seu carro na frente do Zanzibar, entra em cena Mathilda. Mathilda é feliz com o seu salto, maquiagem, acessórios e meia-calça. Não há teatro aqui. Não há homem travestido de mulher. Talvez uma piada de mau gosto da natureza? Pode ser. Mas Laurent não mentiu ao formar a sua família, ele foi feliz ao casar-se com Solange, mesmo que dentro dele vivesse uma mulher. Ele era um homem realizado como genitor de Thomas e Claire, ainda que Mathilda quisesse se revelar ao mundo.

Sociedade, cultura, família, religião. Convenções que pautam padrões. Existe algum limite para o fingimento? Depende do que você quer para você mesmo. Em Ponto Cardeal, Récondo não deixa margem para Laurent se acomodar dentro de um padrão, Mathilda (e mais tarde, Lauren) latejava dentro dele o machucando, desprezando seu verdadeiro eu. Lauren liberta-se de forma irreversível expondo um coletivo intolerante que, de maneira assustada e violenta, tenta manter intactos os tabus morais de uma sociedade conservadora. E não nos cabe julgar, dizer o que é certo ou errado. Como diz Caetano, “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

Esta estória me lembrou demais a música “Comum de dois” da Pitty:

Minha edição:

Ponto Cardeal – Léonor de Récondo, tradução de Amilcar Bettega

Editora Dublinense e TAG livros, primeira edição de 2017, 172 páginas.

Herdeiras do mar – Mary Lynn Bracht

“Às vezes velhas feridas precisam ser reabertas para serem curadas de maneira adequada.”

Este livro conta uma história brutal. Em 1943, durante a Colonização japonesa da Coreia do Sul estima-se que cerca de 50 a 200 mil mulheres coreanas foram sequestradas e vendidas como escravas sexuais aos soldados japoneses.

Embora com personagens fictícios, o que Mary Lynn Bracht nos conta, causa asco. É humanamente impossível ficar impassível com tanta brutalidade. Hana foi sequestrada no lugar de sua irmã, ela era uma das Hanyeo (mergulhadoras que sustentavam suas famílias e impulsionavam a economia local) que estavam mergulhando em uma manhã, a sua irmã, ainda criança, brincava na areia. Hana viu a aproximação de um soldado, com medo já incutido em sua alma, correu para a praia, sendo assim, avistada pelo militar que a levou como prisioneira.

Mandada para a Manchúria juntamente com dezenas de outras jovens, Hana foi apelidada de Sakura e virou uma mulher de consolo. No bordel para onde foi levada sofreu agressões, além de inúmeros estupros. Os soldados se revezavam com as jovens, que além da brutalidade sexual, ainda passavam fome e eram expostas a todos os tipos de doenças.

No bordel Hana era apenas mais uma, mas diferentemente das outras, ela nunca se resignou ao seu destino, buscou sempre um meio de escapar do inferno em que vivia, nem que fosse dentro da suas memórias. Hana nos mostra que a vida é cheia de acontecimentos súbitos, mas, em seu todo, fugaz.

Herdeiras do mar se reveza entre o inferno de Hana e a esperança de Emi, a irmã poupada que nunca a esqueceu e tampouco perdeu as chances de reencontrá-la. Alternando a linha temporal das personagens somos cativados a enxergar a beleza da vida, embora ela seja efêmera como uma flor. este livro dá voz à milhares de pessoas que foram enganadas, sequestradas e abusadas  em meados da Segunda Guerra Mundial. Um capítulo triste de nossa história.

Recomendo a leitura!

 

Minha edição:

Herdeiras do mar – Mary Lynn Bracht

Tradução: Julia de Souza

Editora Paralela

Nascido do Crime – Trevor Noah

Nascido do crime não é uma autobiografia de Trevor Noah, um ator-comediante de Stand-up, que atualmente é o apresentador do The Daily Show. Nascido do crime é um relato bem – humorado sobre a sua infância e vida na África do Sul nos anos finais do Apartheid, com todas as suas dificuldades, violência e preconceito.

Antes de mais nada é preciso que se explique o título deste livro. Trevor Noah é filho de um homem branco com uma mulher negra, isto era crime pela Lei da Imoralidade, 1927: ” 1 -Qualquer europeu do sexo masculino que praticar conjunção carnal ilícita com um nativo do sexo feminino […] será culpado de transgressão e passível de condenação a pena de detenção por um período não superior a cinco anos. 2 – Qualquer nativo do sexo feminino que permitir que um europeu do sexo masculino pratique conjunção carnal ilícita consigo […] será culpado de será culpado de transgressão e passível de condenação a pena de detenção por um período não superior a quatro anos.” – Portanto, Trevor Noah, é fruto de um crime, e na África segregada, pior do que ser negro, era ser mestiço. Cresceu escondido, protegido por sua família e em especial, pela sua amorosa, mas muito severa mãe.

Patricia Noah é uma figura bastante presente na obra. Uma mulher destemida e independente que desafiava as leis do país, Cristã fervorosa, mas uma mulher que teve o seu quinhão de sofrimento com um relacionamento abusivo, quase levado às últimas consequências, sempre acobertado por uma cultura machista de que o homem era o dono de sua mulher e a “educava” com mãos de ferro.

Noah conta as agruras de sua vida de forma leve, engraçada e tirando sarro de todas as situações absurdas que a segregação racial impunha. Conta de sua infância protegida, escondido dentro de casa, sem amigos. O preconceito contido em cada ato não deixava que ele se sentisse à vontade em nenhum grupo social, uma vez que era nem mesmo um “Coloured”, não podia se juntar aos negros e tampouco aos brancos, e, talvez este “não -pertencimento” tenha dado a ele uma noção maior do quão nocivo era o racismo cru que assolava a África do Sul, e foi no Gueto que ele se sentia em casa, onde se via em cada rosto de Soweto (bairro negro e periférico de Johannesburgo), mesmo que as cores não se parecessem ele estava em casa e aprendeu a sobreviver, se defender e a conquistar seu espaço.

Nascido do crime é um excelente livro, promove em nós um misto de reações. A primeira e maior, é a indignação com toda a história do apartheid e a guerra travada entre os negros da África. Noah diz que “a genialidade do apatheid  foi convencer a grande maioria da população de que as pessoas eram inimigas uma das outras”. Não era um movimento contra negros, mas contra tribos negras como Zulu e xhosa,, por exemplo, transformando o país em uma babel racial (e também linguística).

Trevor Noah me conquistou com a sua narrativa divertida, pormenorizando sua história de vida, homenageando a sua mãe e deixando uma lição importante de que não importa quanto a vida é injusta e te joga em caminhos distantes daquele que você planejou, quis ou achou ser o certo, o que vale mesmo é ser honesto com ela, não ter medo de ser diferente porque, no fundo, são as diferenças que nos tornam iguais. Recomendo fortemente a leitura.

 

*Minha edição foi elaborada entre a Tag livros e a Verus Editora, com tradução de Fernanda de Castro Daniel.

 

Stoner – John Williams

Não consigo pensar em um adjetivo melhor para este livro do que: Sensacional.

Em si a estória parece um enredo simples, quase simplório, que narra a história de um filho de fazendeiros que é mandado à universidade para estudar Ciências Agrárias a fim de ajudar a família humilde, mas se apaixona por Literatura e acaba por se tornar professor de Literatura Inglesa.

O livro segue falando da vida cotidiana de mais de 40 anos de Stoner, revelando o seu cotidiano onde ele passa por inúmeras situações com alguma submissão que chega a enervar o eleitor. Stoner parece um homem resignado com o seu destino e vai reagindo a tudo com indiferença impassível, silencioso, com uma eloquente rigidez moral que, por vezes, senti vontade de interferir na sua vida, se fosse possível.

John Williams aborda temas como distanciamento dos colegas, a primeira grande guerra mundial que rondava e, claro, seus reflexos na vida acadêmica. Fala também das relações pessoais e familiares, como um casamento difícil e a relação com a sua filha, além de um impossível romance com uma jovem professora. Stoner parece um homem solitário, talvez pela postura inflexível que adota ao defender aquilo que acredita e pela forma como entende a vida e sua postura profissional. E talvez fosse solitário mesmo, mas ele foi um homem íntegro ao que se dispôs fazer.

O que faz este livro ser tão sensacional? A forma como a estória é narrada. Williams escreve numa prosa límpida, impecável, passando por todos os meandros da vida de um homem comum que sai todos os dias para trabalhar. Stoner é um personagem verossímil, não há nada de fantástico em sua vida e é exatamente esta simplicidade do desenrolar da vida que torna o livro interessante.

É raro encontrar um livro que te embale e carregue em uma viagem emocional desse nível com grandes estímulos paradoxalmente simples, mas intensos que nos deixam sem respirar.  Outro ponto forte do livro foi a dualidade das relações amorosas de Stoner. Com a esposa Edith, uma mulher que não foi criada para o sexo, mas para a família e encara o casamento como uma servidão, algo inerente à sua natureza, mas alheio à sua vontade. Katherine era o oposto disto. A relação de Stoner com Katherine é narrada com rara sensibilidade, sem ser vulgar como as relações extra conjugais nos parece, mas como algo que não se luta contra, por falta de força e não de vontade.

“A vida que tinham juntos era uma vida que nenhum deles imaginara verdadeiramente. Passaram da paixão a um desejo intenso e do desejo a uma sensualidade profunda que se renovava a cada instante. Estudam conversam, brincam. Aprenderam a estar juntos sem falar e habituaram-se a descansar.”

Se este romance tem um tema central, certamente é o amor, as muitas formas que o amor assume e todas as forças que se lhe opõem. Recomendo fortemente este clássico americano dos anos 60.

 

 

* A minha edição é da Ed. D. Quixote com tradução portuguesa feita por Tânia Ganho e foi lida no Kindle, mas há uma edição mais recente da Rádio Londres.

 

 

 

 

 

Êxtase da transformação – Stefan Zweig

O romance é ambientado em 1926 retrata de forma poderosa os detalhes do impacto social que a Primeira Guerra Mundial trouxe, levando a miséria para várias famílias em contraste com  a alta burguesia.

Christine é uma simples funcionária dos Correios, mora em uma vila austríaca, tem 28 anos e mora com a mãe doente em uma casa modesta. Sua vida é insípida e há escassez de tudo: conforto, beleza. A Guerra havia terminado, mas a pobreza não.

Um dia, porém, a sorte parece sorrir para Christine. Sua tia Claire envia um telegrama,  que a convida a passar as férias em um hotel luxuoso na Suiça, nos Alpes. É importante observar o comportamento que Zweig imprimiu em sua protagonista que fica deslumbrada com tanto luxo, beleza e felicidade infinita. Primeiro, ela se sente  imerecida e inadequada naquele ambiente, as suas roupas e postura contrastam-se com a opulência do lugar. Depois, com a ajuda da tia, sua vida é transformada pela facilidade e comodidade que uma vida abastada traz, descobrindo-se uma mulher bonita, interessante e cativante. Christine associa essa mudança ao luxo, não a algo adormecido em si.

Todo este êxtase da transformação que ela sofre também carrega sua dose de problemas, uma vez que todo esse embevecimento precisa ser sustentado e explicado, levantando suspeitas e inveja de algumas moças que estão no mesmo hotel. Neste momento da trama, Zweig é bastante perspicaz, ele nos mostra a ascensão e descensão de Christine e deixando a história dela com tons sombrios. Tudo é justificado pela pobreza? Quanto a miséria pode corromper mais do a riqueza?

Êxtase da transformação é um livro envolvente,com uma grande complexidade psicológica e muito bem construído, que explora  com precisão as nuances e personalidades com todas as suas subjetividades do universo íntimo manchado por manifestações exteriores, manifestações tais que podem resultar em ansiedade, sentimento de não-pertencimento e depressão.

Nunca havia lido nada do Stefan Zweig e apreciei demais o seu estilo de escrever, a solidez e sobriedade como ele descreve seus personagens, suas agruras, medos e anseios. Êxtase da transformação é um passeio pela mente humana. Recomendo!

 

Trechos do livro

“Quando a vergonha atinge uma pessoa em algum ponto, sem notar também o mais distante nervo do organismo fica  abalado; a mais leve alusão, o mais acidental pensamento renova e multiplica o sofrimento daquele que uma vez se sentiu envergonhado.”

“Uma palavra de honra sempre serve de respaldo à mulher, ao que ela se agarra antes do tombo.”

“Todas as pessoas felizes são más psicólogas.”

“Uma das poucas vantagens da idade é que raramente a gente se engana totalmente com as pessoas”.

“O medo é um espelho deformador, sua capacidade de exagero dá um horror imenso a qualquer traço ocasional, tornando-o nítido como numa caricatura, e a fantasia, quando fustigada, persegue as mais doidas e inverossímeis possibilidades”.

“As pessoas que repousaram dentro de si próprias não sentem com intensidade o mundo que as cerca.”

“Toda matéria possui certa medida de resistência; além da qual a elevação não é possível, a água tem seu ponto de ebulição, os metais seu ponto de fusão, e também os elementos da alma não fogem a essa lei irrevogável. A alegria pode atingir determinado grau, qualquer acréscimo já não será percebido, e assim também ocorre com a dor, o desespero, a depressão, a repugnância e o medo. Quando cheio até a borda, o vaso interior não absorve nem mais uma gota do universo.”

“Nada tirar de quem quer que seja, apenas ter aquilo a que se tem direito, a sua parte na vida, não ficar sempre do lado de fora e por baixo, com os pés na neve, enquanto os outros estão lá dentro.”

“Que seja merecida ou imerecida, honrada ou miserável, a pobreza tem mau cheiro”. 

“A pobreza quase chega a esmagar a paixão de seu sentimento, e eles suportam o convívio, e ao mesmo tempo não o aturam.”

“A incerteza sempre é mais difícil do que a certeza, o medo breve, concreto, é mais suportável do que o medo longo, impalpável.”

 

O livro:

Êxtase da transformação – Stefan Zweig

Tradução: Kurt Jahn

Editora: Companhia das Letras –

 

As fúrias invisíveis do coração – John Boyne

As fúrias invisíveis do coração conta a vida de Cyril Avery nascido em 1945 na Irlanda. Sua trajetória ao longo de seus 70 anos é narrada envolvente, bem ao estilo de Boyne.

Cyril  viveu em uma Irlanda extremamente católica e conservadora que associava o homossexualismo a uma doença que culminava em depressão e suicídio. Filho de mãe solteira foi adotado no mesmo dia de seu nascimento por um casal peculiar. Charles e Maude nunca tiveram amor ao filho, filho adotivo (como faziam questão de salientar) e, apesar de Cyril parecer mais um acessório da casa, foi bem educado, era inteligente e sensível, mas uma criança solitária, tímida e extremamente ingênua.

A trama percorre os anos de Cyril e metade de sua vida ele passa disfarçando a  homossexualidade. Desde a infância foi apaixonado pelo seu melhor amigo, Julian, e entendeu logo que era diferente de outros meninos.

A sua vida sexual  é conturbada e permeada de encontros furtivos e perigosos pelos Guetos de Dublin. Fora de seu país natal ele consegue um pouco mais de liberdade sobre a vida dele, assim como ter um relacionamento com quem ele realmente se sentisse atraído e não como um suporte para mascarar a sua sexualidade.

Boyne toca em assuntos muito delicados quando fala de uma parcela da sociedade que é vista como promíscua e o aparecimento do HIV, no início dos anos 80, era diretamente ligado homossexualismo. Fala também da hipocrisia daqueles que assumem uma família como uma máscara social e escondem seu verdadeiro eu, aqueles que, por conveniência, permanecem no armário. Mas sua narrativa é pacifista e nos desarma de julgamentos sobre como alguns personagens escolhem viver as suas vidas. Este é um livro que prega a tolerância, o poder do amor, da amizade e do reencontro. É um livro necessário nos dias de hoje onde ainda vemos tanto preconceito e segregação.

De 1945 a 2015 a vida de Cyril foi narrada em primeira pessoa, às vezes como um menino ainda infantilizado e de pouca perspicácia, mas na maioria das vezes como um homem honesto em suas relações mesmo que isso custasse o sofrimento.

A sacada de John Boyne foi interligar suas personagens do início ao fim, conseguindo colocar em evidência os laços invisíveis que nos cercam e dando um desfecho feliz a vidas separadas pelas consequências do preconceito e da violência, mas reunidas pelo amor, amizade e perdão.

 

Trechos do livro:

“Para cada borboleta velha há uma lagarta jovem”

“Detestamos aquilo que tememos em nós mesmos”

“O mundo seria um lugar muito mais sadio se a gente deixasse cada um fazer exatamente o que quer, quando quer, com quem quer, sem inventar regras puritanas para orientar a nossa vida social”

“Há três tipos mentiras: A mentira, a mentira deslavada e a estatística”

 

O livro:

As fúrias invisíveis do coração

Tradução: Luiza de Araújo

Editora: Companhia das Letras

*Li no Kindle.